A importância do apoio político

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Desde o século XVI com Maquiavel, a questão da legitimidade do poder político vem sendo objeto de debate na teoria e na prática política. Legitimidade é o fundamento do poder, é o valor que leva as pessoas a aceitarem a obediência consentida ao poder exercido por outro, constituindo a crença de que as instituições que formam a base de funcionamento da democracia atuam de forma legal em nome do interesse público.

Esse poder político emana do voto e é baseado em normas e procedimentos contidos nas leis acordadas para o funcionamento do Estado, em vista dos quais os cidadãos podem avaliar se o regime político é o mais apropriado e se o governo atua de forma condizente com os seus princípios fundadores. Surge daí a preocupação com a avaliação que os cidadãos fazem da democracia e, mais precisamente da atuação de seus líderes políticos. Nos estudos sobre apoio político identificou-se que os cidadãos fazem uma distinção entre o tipo de regime ideal e o desempenho do mesmo, baseando o apoio político inicialmente na preferência pelo tipo de regime, no nosso caso o democrático e, em seguida, na forma que os cidadãos avaliam seu funcionamento e os resultados produzidos no cotidiano social, sendo essa avaliação passível da interferência de fatores de ordem cultural, política e econômica.

Ao segundo momento, dá-se o nome de “apoio específico”, que diz respeito à avaliação que as pessoas fazem do funcionamento das instituições atendendo à sua razão de ser original e o apoio aos líderes que são os titulares do poder político nas respetivas instituições, ou seja, aos membros da chamada classe política. Na última década, esse apoio tem sido bastante corroído pela atuação escandalosa de vários líderes políticos e uma percepção generalizada de corrupção nas instituições, levando a números preocupantes nas pesquisas de opinião, que revelaram que apenas 9% dos cidadãos consultados acreditam que o governo atua em benefício do povo[1].

No atual cenário de pandemia estamos vendo esse fenômeno de forma clara, quando a população começa a questionar as “soluções” apontadas pelo governo federal e pelos governos estaduais e municipais, diminuindo a adesão às medidas propostas como o isolamento social, em uma espécie de autorregulação. Somem-se a isso as condutas desproporcionais em alguns estados, onde cidadãos estavam sendo presos de forma arbitrária sem que houvesse prova de que estavam infringindo a lei ou colocando outros em risco. Nos estados e países onde a pandemia tem sido combatida de maneira mais eficaz, dois fatores são comuns: a rápida resposta na estrutura de enfrentamento (hospitais, testes, etc.) e a confiança dos cidadãos em seus líderes políticos, que fez com que aderissem às restrições de circulação. Essa confiança foi estabelecida com ações concretas! Em um cenário caótico onde as informações que chegam são confusas e assustadoras, os cidadãos esperam que seus líderes políticos e gestores públicos lhes digam quais são os planos, quais as saídas possíveis, quais os prazos, o que tem sido feito para enfrentar a situação, não se constrói apoio político com discursos. Sem o apoio político, a legitimidade do poder é questionada e, em uma sociedade onde esse mesmo apoio já é frágil há algum tempo, a ação política fica seriamente comprometida.

É fácil dizer que os cidadãos são teimosos ou ignorantes, mas essa não é a real razão. Se o cidadão não confia em seus líderes, por que irá apoiá-los quando eles propõem lhes tirar a liberdade (ainda que temporariamente)?

 

 

[1] Dados do Latinobarômetro referentes à confiança política no ano de 2018. Disponível em: latinobarometro.org.

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