A interpretação escandalosa da política brasileira

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Nos últimos anos (e com mais ênfase nas duas décadas deste século XXI) os acontecimentos políticos têm sido “narrados” obedecendo imperativamente a lógica do escândalo político em uma espécie de espetáculo de mau gosto. Em seu excepcional “O escândalo político: Poder e visibilidade na era da mídia” de 2002, o sociólogo John B. Thompson desenvolve a teoria social do escândalo político, buscando perceber sua influência no agir político contemporâneo.

Em linhas gerais, o escândalo político refere-se a uma transgressão das regras estabelecidas para a disputa e o exercício do poder político e, no contexto midiático atual, traduz-se no abuso de poder que viola a confiança social, causando uma reação de repulsa da opinião pública e podendo influenciar na ordem pública. A reação gerada passa então a funcionar como uma forma de controle social, uma indignação perante a perda de confiança depositada na pessoa ou instituição pública transgressora, que deve forçar uma mudança de postura nos líderes políticos e nas instituições.

Você consegue lembrar os escândalos mais recentes? Certamente o escândalo do Mensalão (e outros menores em escala local ou regional), seguido pelo escândalo da Petrobrás ainda estão bem vivos na nossa memória coletiva. Este último foi do tipo mais grave, um escândalo de poder, que subverteu todo o processo político aos interesses particulares de grupos políticos.

Ocorre que toda sociedade tem seu grau de tolerância com a conduta dos agentes políticos, seja por comportamentos vexatórios ou atividades ilícitas e, na última década esse grau foi bastante diminuído à medida que os cidadãos começaram a ir às ruas e à internet dizer que não aceitariam mais a generalização desse tipo de conduta. Com o aumento da sensibilidade ao escândalo, cresceu também entre os atores políticos o uso desse fenômeno como ferramenta de ataque à reputação dos opositores, uma tática tão enraizada na cultura política como a própria disputa de poder, mas que agora funciona em outros moldes e com novos atores.

A proeminência do escândalo na atualidade está essencialmente relacionada com a intersecção das esferas da comunicação e da política, de onde se destacam a transformação da publicidade ou visibilidade do poder, o surgimento das modernas tecnologias de vigilância e controlo, a afirmação do jornalismo como campo autônomo, institucional e vigilante do poder político, a midiatização da esfera política e dos seus atores, a personalização do debate público e a diluição das fronteiras seculares entre a esfera pública e a esfera privada.

Na sociedade midiática contemporânea o papel da mídia é antes, o de um intérprete dos acontecimentos políticos e sociais, influenciando a percepção que os cidadãos têm do mundo político e de sua dinâmica, fomentando a opinião pública e pautando uma agenda de discussão e de políticas públicas. Assim, a narrativa escandalosa funciona perfeitamente à lógica do ciclo de notícias, que apresenta os fatos de forma episódica, dramatizada, e define a forma como os cidadãos têm acesso às informações políticas e constroem modelos interpretativos da realidade política e dos políticos.

Assim, alguns dos processos naturais da política ou as atividades do dia a dia da gestão pública são apresentados ao público — sim a lógica é de público consumidor de informação e não de cidadãos que devem entender os processos — como pejorativos, escandalosos, com a lógica de embate e, confundem-se com as transgressões reais e de fato escandalosas. A função social do escândalo, que é antes a de regular a conduta política, perde-se em uma associação generalizada da política com o comportamento escandaloso contribuindo para o efeito inverso, o da alienação do cidadão em relação às instituições e à classe políticas.

A estrutura narrativa e midiática do escândalo político pode comprometer a visão que os cidadãos têm do funcionamento das instituições e do papel dos representantes políticos, ao enfatizar continuamente os abusos de poder em detrimento das ações virtuosas, turvando a capacidade de diferenciar as ações circunstanciais de governos e atores políticos do funcionamento regular e do propósito das instituições.

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