A representação política e a representação da política

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Em seu ensaio A obra de arte da era da reprodutibilidade técnica o filósofo Walter Benjamin, ao tratar do impacto das novas tecnologias na arte, se refere ao cinema como uma obra de arte de massas. Segundo ele, a captura das imagens em vídeo e o processo de montagem, tiraram do ator o poder sobre o resultado da obra, que se revelava único a cada apresentação. No cinema, a mensagem pertence ao diretor, que monta um quebra-cabeças de cenas que fazem sentido sempre na mesma ordem em todas as vezes em que é apresentado.

No mundo da política, esse movimento de transferência do poder também resultou da evolução das novas tecnologias de informação e comunicação, produzindo uma personalização na política que localizou o poder na figura do líder político em detrimento das ideias propagadas pelos partidos.

Assim se processou uma distinção entre a representação política e a representação da política. Na gênese, a palavra representação se referia às manifestações artísticas como as encenações teatrais dos acontecimentos e a reprodução de pessoas ou locais em obras como escultura e pintura, tendo sido a palavra repraesentare a precursora do termo usado atualmente.

Com a evolução histórica, a representação política passa a ser entendida como um processo de transmissão de autoridade do povo para seus governantes, legitimando o poder e lhe conferindo um caráter democrático e limitado (visto que deve ser concedido periodicamente pela eleição). Dessa forma, no ambiente político contemporâneo a representação política funciona como um mecanismo de legitimação da autoridade no sentido de tomar decisões políticas consentidas e em nome de outros, com base numa relação que se inicia e finaliza no voto, que deve se desenvolver continuamente através da responsividade do representante face às necessidades do representado, produzindo a confiança política indispensável ao bom funcionamento das democracias atuais.

 

Já no cenário de representação da política, comumente associado ao período eleitoral (mas não exclusivo dele), predomina a interpretação de papéis com a influência da lógica midiática objetivando o domínio do imaginário social. No cenário de representação da política[1] os imaginários sociais são fabricados e emitidos pelos meios de comunicação, influenciando a compreensão da realidade política e da disputa de poder, através das mensagens emitidas sutilmente pela mídia por meio de pautas jornalísticas, temas de programas e novelas e programas de entretenimento, que significam ou re-significam as noções de cultura política que temos.

 

Um exemplo importante de mensagem subliminar produzida por esse cenário é a ideia de que política é algo ruim, externo à sociedade ou não é lugar de pessoas boas. Nas últimas décadas, todo o noticiário é dominado por exemplos negativos da atividade política enquanto exemplos virtuosos são apresentados como extraordinários e de forma muito esporádica, nas novelas os políticos são personagens detestáveis e séries de tv apresentam o dia a dia da política no governo ou casas parlamentares como uma trama eterna de traição e ganância.

A presença dessas mensagens e leitura constante de uma predominância da face negativa da política despertam sentimentos de rejeição contra seus representantes e certo distanciamento das pessoas da atividade política. Não apenas com relação ao interesse sobre o funcionamento da política, também com relação ao ingresso como representantes eleitos.

 

A equação era política é lugar de pessoas de mau caráter, logo se eu sou uma pessoa de bom caráter não devo me meter com política. Esse pensamento proporcionou o domínio de pessoas de mau caráter no espaço representativo e, em certa medida, tornando a mensagem real. Mas a convergência da mídia (telefones, rádio, tv e internet) pôs em cheque a unanimidade dessa mensagem e construiu um cenário de representação da política que demanda uma qualificação da representação política.

 

No imaginário social agora predomina a ideia de que os cidadãos querem falar de política, podem falar de política, querem atuar politicamente e podem cobrar de seus representantes a responsabilidade sobre seus atos. Durante muito tempo fomos dominados pelos cenários midiáticos que nos entregavam mensagens prontas apenas para absorver, com a evolução tecnológica, veio a interatividade e assim passamos a emitir mensagens e questionar, e agora também somos responsáveis pela visão política que temos.

 

E você, vai fazer o que com essa responsabilidade?

[1] Conceito criado pelo cientista político Venício de Lima ao discutir o papel da mídia no poder político na contemnporaneidade. Pode ser encontrado no artigo LIMA, Venício A. de. Os midia e o cenário de representação da política. Lua Nova,  São Paulo ,  n. 38, p. 239-271,  Dec.  1996 .  Disponível em:  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-64451996000200012.

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