“Pureza” nos cinemas: Depois de 30 anos o trabalho escravo no Brasil segue dolorosamente atual

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Por Gomes Avilla
Designer e Comunicador

 

 

 

“Falar sobre qualquer obra que tenha a Dira Paes no elenco é sempre um desafio, pois a sua intensidade ímpar e seu afinco em interpretar personagens típicos da cultura brasileira sempre é surpreendente e em Pureza (2019) , não é diferente, sua personagem possui bravura, inocência e boas doses de “sangue no olho’”.

 

Cartaz - Pureza - FilmeA OBRA
O filme retrata a história de Pureza Lopes Loyola, uma mãe que desafiou fazendeiros e jagunços para resgatar o filho da escravidão contemporânea na Amazônia brasileira na década de 90 e que ganhou repercussão nacional e internacional. Suas denúncias foram parte importante da luta pelos direitos trabalhistas e humanos, sendo em 1995, muito influentes para a criação de um grupo especial do Ministério do Trabalho para o combate do trabalho escravo.



PRIMEIRAS IMPRESSÕES

A primeira impressão que se tem sobre o filme é de que vai ser mais um exemplar do cinema brasileiro que destaca a violência e a ação na sua busca por explorar temas sociais. Porém, em Pureza, apesar dos pontuais momentos de violência e ação, é muito mais clara a intenção de mostrar o contraste da figura quase folclórica da mãe interiorana religiosa e do sistema brutal no qual ela se vê inserida em busca do filho. O longa concentra bastante energia em fazer alegorias visuais a esse contraste, trazendo memórias visuais tanto da escravidão colonial quanto da religiosidade forte presente no interior brasileiro.

A NARRATIVA
O filme possui um ritmo narrativo que no início dá uma impressão que será um filme bastante realista, com uma passagem de tempo relativamente lenta, especialmente retratando Pureza e sua lenta descoberta do mundo horrível da escravidão contemporânea, no entanto, nos 40 minutos finais do filme, o ritmo muda completamente e chega a beirar o de uma série de ação, com desfechos e resoluções de conflito rápidas e um tom triunfalista no final.
Vale lembrar que a Dona Pureza da vida real buscou seu filho por quase 3 anos, servindo de cozinheira em diversas fazendas do interior do Pará, e que sua influência nos direitos humanos não ocorreu do dia para a noite. No longa, essa parte da história é resumida através de figuras do poder público que sintetizam a luta de Dona Pureza em Brasília, tais como a ativista dos direitos humanos que quer criar a comissão, o senador que secretamente é um dos patrocinadores desses crimes humanitários e o membro do Ministério da Justiça que põe em dúvida as declarações de Dona Pureza sobre o trabalho escravo.

Filme-Pureza

FOCO
Com essa mudança de ritmo abrupta, o longa por muitas vezes perde o foco, abrindo parênteses incompletos durante alguns insights, como, por exemplo, a vilanização completa dos capatazes das fazendas, mas ao mesmo tempo, dando a entender que um dia eles provavelmente já estiveram como os trabalhadores que exploram e torturam (através da figura do trabalhador que vira capataz, no personagem Flecha), fazendo com que a visão de como esses sistemas funcionam fique superficial. Já a protagonista do filme, que seria um prato cheio para um estudo de personagem que tanto empoderasse como desconstruísse o estereótipo da mulher sofrida do interior, acaba por seguir na direção que faz lembrar da personagem de Maria do Carmo, interpretado por Suzana Vieira em busca de Lindalva na novela “Senhora do Destino” (2004 – TV GLOBO).

RESUMO
Pureza se encerra como um longa que, apesar de ter suas falhas, toca em assuntos que, apesar dos ocorridos terem quase 30 anos, ainda são dolorosamente atuais. Para muitos que não tem muito conhecimento da história ou da temática, pode ser um bom filme de relato pessoal que prenda por seus momentos melodramáticos, já para os que já possuem conhecimento sobre os temas tratados, a experiência fica por conta das atuações intensas no elenco e na intenção do longa em gerar alerta para esse grande problema ainda enfrentado, principalmente nos interiores do país.

“Pureza” tem Direção de Renato Barberi estrelando Dira Paes e elenco e estreia dia 19 nos cinemas de todo o Brasil.

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