Estamos reeditando o século XX?

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Nos últimos anos, após um curso de consultoria de imagem, comecei a observar um pouco a moda. A despeito de sua inserção no mundo do consumo, a moda é essencialmente um fenômeno cultural e comunicacional e, historicamente, demarca momentos nas sociedades, podem-se identificar regimes políticos, divisão de classes, movimentos econômicos e tradições religiosas a partir de elementos de vestuário, um componente da linguagem não verbal. Nesses últimos anos pode-se destacar uma desaceleração do mundo, um clamor à sustentabilidade, ao sentido do consumo (quantidade x qualidade), à relação que tem se estabelecido entre a tecnologia e o consumo.

Tais mudanças na moda refletem o perfil da geração atual, que se comporta de forma a questionar o que está estabelecido, seja no consumo de moda, de informação ou de ideias políticas. A geração atual, altamente conectada tecnologicamente, está em grande parte desconectada culturalmente das gerações anteriores e busca sentido em todas as experiências que tem.

Aliás, essa parece ser a palavra desse início de século, experiência. No mundo político, o advento dos “pós” desde a queda do muro de Berlim e a configuração posterior do mundo  que moldou as últimas décadas do século XX, trouxe a ideia de que haviam se esgotado todas as reivindicações, os debates e as grandes questões a serem resolvidas no mundo, com conceitos como pós-modernidade, pós-democracia, pós-política, pós-verdade[1].

Eis que chegamos ao século XXI e vieram os questionamentos: o que vem depois? O que colocamos na história depois dos “pós”? Aparentemente estamos em uma etapa de transição, onde as ideias anteriores têm sido exaustivamente questionadas, mas as ideias que poderão substituí-las ainda não estão prontas. Nesse momento de questionamento, a identidade desse século ainda não tem muitos contornos, em especial por que a promessa de esgotamento dos questionamentos do século anterior não se concretizou.

Desde os anos 2000 estamos assistindo a protestos sobre direitos políticos básicos como paz, liberdade, voto, democracia e, mais recentemente, sobre a recorrência de práticas racistas nos Estados Unidos, mas que encontram ressonância em todo o mundo (talvez não dos protestos, mas sim do racismo). Parece absurdo não? E é, de fato, absurdo.

Maquiavel já dizia que as crises políticas tendem a ser cíclicas, uma vez que suas reais causas não sejam resolvidas dentro da sociedade. A velocidade de evolução tecnológica do final dos anos 1900 e início dos 2000 não corresponde à velocidade da cultura e da prática política, a velocidade da informação não foi (e nunca será) a mesma da velocidade de reflexão coletiva e esse descompasso acabou por mascarar a necessidade de desenvolvimento coletivo, de evolução da cidadania (que inclui além de direitos, DEVERES) e de resolução dos conflitos sociais.

Não fomos nós que evoluímos, foram as máquinas. Enquanto não exercitarmos a conexão real com a mesma dedicação que o fazemos no virtual, voltaremos a reeditar as décadas e os problemas anteriores. Na moda, isso acontece constantemente com as “releituras” e elas não se tratam apenas de acessar sua memória afetiva e estimular o consumo, são exatamente isso, um chamado a fazer novamente a leitura do momento político que foi vivido à luz das ferramentas cognitivas e tecnológicas que temos hoje.

Esse é o momento de fazer isso mais uma vez na política, então vamos reeditar o século XX ou vamos às releituras?

[1] Tratamos disso no post “São muitos os pós – em que momento da história estamos?” publicado em 18/03/20.

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