O dilema social

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Nos últimos dias, o filme/documentário O dilema social (sim, o título correto é esse Our Social Dilemma, a tradução O dilema das redes acaba por deturpar o sentido da mensagem) da Netflix inundou as redes com inúmeras opiniões. Mas se você terminou de assistir e foi direto deletar as redes sociais, desculpe mas você precisa assistir de novo, pois não entendeu bem a “moral da história”.

Quando eu era pequena, entre 5-6 anos, minha mãe lia pra mim os livrinhos de contos de fadas e historinhas e sempre me perguntava ao final “Qual a moral da história?”, quando cresci e aprendi a ler percebi que não tinha essa pergunta nos livros, era a forma dela estimular meu pensamento e tenho feito esse exercício desde então, para tudo que vejo e leio, pois tudo tem uma mensagem, uma moral da história. Recomendo que o faça para sobreviver nesse mundo que vivemos.

Nesse filme/documentário, a ideia vendida não é que você deve deletar tudo e voltar à era analógica, é reconhecer que há uma disfunção na forma como as empresas gestoras das redes sociais e ferramentas digitais vem usando e moldando nosso comportamento, de forma a nos transformar em “escravos da máquina”. Bem, esse despertar não é novo, quem lê ou assiste ficção científica convive com essas mensagens há décadas, com constantes questionamentos sobre os resultados políticos, sociais, econômicos, psicológicos e culturais da interação homem-máquina.

E O dilema social bebe nessa fonte, com uma aura de suspense, que vai modulando com um pouco de drama e romance, inclusive na trilha sonora. É um “conto” de propaganda que bebe da ideia do “fantasma na máquina” de Mary Shelley (Frankenstein), Arthur C. Clarke (tem inclusive uma citação dele em uma parte da narrativa) e Matrix (sim, Matrix…a melhor tradução cinematográfica desse despertar que os ex-criadores das ferramentas tentam se referir. Recomendo rever a trilogia com atenção) para nos “sacudir” desse transe que eles consideram danoso à sociedade, ou seria antes à indústria digital?

Em linhas gerais, a ideia do fantasma na máquina se refere ao movimento da humanidade rumo à autodestruição, através do uso da tecnologia para a construção de ferramentas como bombas nucleares por exemplo. Mas no século atual, essa autodestruição pode ser empregada por meios mais sutis.

O fato é que estamos falando de poder (lembram que tudo é política?), aqui o poder de determinar um modelo de sociedade e de dominação. A culpa não é da inteligência artificial ou da internet ou das redes sociais, a questão aí está no elemento humano, afinal elas são apenas ferramentas e, como qualquer ferramenta sua destinação depende mais das intenções de quem as usa do que de quem as produziu (salvo algumas exceções, como parece ser o caso). O formato como essas ferramentas foram pensadas e como vem sendo usadas reforça nosso comportamento de manada, a “alma da multidão”  − que já mencionei pra vocês em colunas anteriores − um comportamento que nos faz seguir “líderes” quase sem questionamento e com a ilusão de que fazemos aquilo por opinião própria. As métricas produzem bolhas de opinião e de consumo que reverberam em todos os campos da sociedade.

Os resultados das eleições nos EUA e no Brasil são citados como exemplos de manipulação de dados, mas a questão é mais profunda. Se as tais bolhas não viessem sendo operadas há tempos, os dados em si não seriam determinantes nos resultados, seriam apenas mais um elemento que poderia influenciar ou não, a não ser que houvesse hackeamento direto das urnas, mas eles falam claramente de influência de comportamento, o hackeamento é secundário.

Entendem a extensão do processo? Os poderes de manipulação sempre estiveram nas mãos de grupos restritos, mas a ferramenta digital agora permite que esse tipo de dominação seja mais brutal, menos ligada ao exercício do poder compensatório e mais do tipo condicionado, onde o conhecimento da sua condição de submisso não ocorre. No poder do tipo condicionado, a submissão é alcançada através da mudança de uma crença ou convicção e se exerce pela mudança de padrões de educação que produzem no indivíduo a aceitação da nova condição e comportamento, sem que ele perceba.

Por fim, os desenvolvedores e executivos que nos falam no filme/documentário não são heróis tentando salvar a humanidade, nem se arrependem do que fizeram, veja que nas próprias falas eles dizem que o fizeram, com ressalvas ou não. Há um interesse do grupo em mudar o “modelo de negócios” e, se você puder lembrar, essa frase foi dita várias vezes do meio para o fim. O intuito é produzir um novo modelo de negócios, “mais humanizado”, “mais respeitoso”, segundo eles. Pareceu-me mais uma contestação da hegemonia do Google e do Facebook que uma bandeira de preocupação social pura… mas não se engane, no tal “novo modelo” (que não foi claramente explicado) continuaremos a ser explorados e dominados em algum grau.

Portanto nosso dilema social é como sair da roda do hamster! Em minha opinião resta-nos a solução universal, educação e consciência e, se somos o principal motor dessa indústria, devemos usá-las mais do que ela nos usa, afinal vamos ser realistas, o mundo tecnológico é um mundo sem volta, sempre tem um computador ou robô até nos filmes de sci-fi mais distópicos e eles tem razão, há décadas.

No livro Escolha a catástrofe de 1979, Issac Asimov (outro ícone da ficção e divulgação científica que vai a uma linha paralela ao fantasma na máquina) já dissertava sobre os futuros problemas que poderiam levar a humanidade à extinção. E em certa parte do livro, ele fala exatamente sobre o papel da educação na reversão da catástrofe e como ela poderia funcionar no futuro, com o apoio da tecnologia para salvar essa mesma humanidade. Ele chegou até a especular sobre uma tendência de centralizar informações, culminando em uma espécie de biblioteca computada global que reuniria o conhecimento da humanidade e que toda ela poderia consultar. Seria o Google? Rs.

Vale dar mais atenção à ficção científica, discutia isso com minha professora de geopolítica e governação e concordávamos que esse gênero literário tem muito mais análise do que ficção e, como você pode perceber, as pessoas que nos dominam atualmente certamente a tem como livro de cabeceira.

 

 

Algumas sugestões de bons sci-fis para quem começar a beber da fonte:

  • Frankenstein de Mary Shelley (apesar de ser classificado muitas vezes como um romance ou conto de terror, é um dos primeiros relatos sobre as consequências da criação de uma “inteligência artificial”, nesse caso do tipo “homem tentando ser Deus”);
  • Eu, Robô (livro e filme) e a trilogia da Fundação de Isaac Asimov (Asimov não é partidário do “fantasma na máquina”, ele defende ao contrário, que a inteligência artificial (representada na alegoria pelos robôs) seria uma ferramenta de auxílio e desenvolvimento da capacidade humana);
  • A trilogia Matrix (uma verdadeira aula sobre os impactos da vida na realidade paralela, que podemos comparar às “bolhas digitais” em que muitos de nós vivemos).

 

 

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