O jeitinho brasileiro e a campanha eleitoral

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Quem nunca ouviu falar no “jeitinho brasileiro”? Desde que Sérgio Buarque de Holanda nos falou do Homem cordial como aquele que age movido pela emoção em detrimento da razão, começamos a entender um pouco nossa dificuldade de distinguir entre o público e o privado e de atentar aos princípios da ética e da civilidade em nossa vida social e política.

A partir daí a expressão foi sendo entendida de duas formas: uma com conotação relativamente positiva, ligada à criatividade e à capacidade de improvisar soluções para situações problemáticas (nem sempre respeitando procedimentos institucionais, por isso o “relativamente”), e a outra negativa, com referência à malandragem e à corrupção). Não é bem uma fama da qual deveríamos nos orgulhar, mas o jeitinho é um traço cultural enraizado e, de alguma forma, ainda não conseguimos nos livrar dele.

E assim chegamos à eleição! A campanha eleitoral é um verdadeiro laboratório do comportamento humano individual e social e, como tal, permite identificar comportamentos e tendências transitórias ou permanentes. Um dos comportamentos que melhor traduzem o jeitinho brasileiro é o tratamento amador dado à política (e à eleição), seja como campo profissional, seja como espaço democrático de disputa de poder. Para que uma pessoa se candidate a um cargo eletivo, é necessário que tenha a idade mínima (que varia de acordo com o cargo que irá disputar) e cumpra alguns requisitos de cidadania e alfabetização (você encontra a lista completa dos requisitos no parágrafo terceiro do artigo 14 da Constituição Federal).

Ora, mas em qualquer posição que se almeje no mundo fora da política (apenas para fins didáticos, não existe mundo fora da política) é necessário e/ou desejável que você, além dos requisitos mínimos, tenha também alguma formação complementar na área, talvez alguma experiência remunerada ou não, dentre outras. Por que, ao se candidatar a um cargo eletivo que se enquadra como serviço público, as pessoas acham que não precisam saber de mais nada? A responsabilidade que você vai assumir como representante deve ficar toda nas mãos dos assessores? Especialistas são pra esse fim, mas é importante ter alguma noção das coisas.

O tal “jeitinho” atinge também alguns “profissionais” que atuam em campanhas. Todo mundo acha que sabe fazer campanha, a pessoa diz que é profissional de marketing político e não entende nem de marketing nem de política, diz que é advogado eleitoral, mas ao invés de proteger o cliente e orientar o seguimento da lei, resolve que é melhor ir “achando brechas” na legislação eleitoral para seu cliente ter “vantagem”. O pessoal da comunicação diz que tem que jogar tudo na rede social que é tendência, sem ter visto o que a pesquisa diz sobre os principais canais de comunicação utilizados pelo nicho eleitoral que se almeja.

Aliás, as pesquisas são um capítulo à parte! Informação é a alma de qualquer empreendimento, toda empresa séria, seja de pequeno porte ou uma multinacional, faz pesquisa de opinião pública e de mercado para ouvir seus consumidores e ajustar suas estratégias. Então, por que a pessoa acha que pode fazer uma campanha inteira sem informação de qualidade? Sem ouvir o que o seu eleitor quer ou precisa?

Ressalto que não estou falando da maioria dos profissionais sérios e candidatos compromissados, estou me referindo aos tais “aventureiros”, os que ainda não entenderam o papel de um representante político ou o de um profissional que trabalha com política. Não entenderam a importância que tem lidar com a vida e as expectativas das pessoas. O Jeitinho Brasileiro chega aqui na forma do improviso, o “faz de qualquer jeito que dá certo”, a tal “sorte” ou o “tanto faz”. Esse é um traço cultural e isso reflete na qualidade das gestões, dos serviços públicos e pode elevar os índices de corrupção. A campanha é a porta de entrada, é o momento onde começamos a separar o joio do trigo e podemos avaliar se aquela pessoa e as que a cercam se comportam com a seriedade que a situação e o cargo almejado precisam. Se a campanha pode ser feita de qualquer jeito, por que você acha que o mandato não será?

Não existe esperteza no jeitinho brasileiro e menos ainda quando aplicado na disputa eleitoral, Não existe isso de levar vantagem dentro do processo democrático, não é você quem ganha ou perde, é a sociedade da qual você precisa entender que faz parte.

Pensemos nisso com cuidado!

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