O que o vírus tem a ver com o voto?

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Tudo é política! Tenho dito isso a vocês desde que essa coluna começou e neste momento não poderia ser diferente. Está mais do que provado que a segunda década do século XXI tem sido um verdadeiro teste de sobrevivência…política. Sim, estou falando da pandemia, mas estou falando também das ações dos governantes e líderes políticos diante de tal crise, esta sim uma crise real de enfrentamento público, diferente de algumas pseudocrises que se desenrolam de forma fascicular a cada semana nos jornais.

Um político e gestor público dever ter no horizonte de suas atribuições a possibilidade de atravessar crises, pois elas fatalmente estarão presentes em um mandato em menor ou maior proporção, sendo uma grande responsabilidade, pois em seu poder encontra-se a decisão sobre a vida das pessoas, seja de vida ou morte ou da qualidade de vida em si. Nas últimas semanas nossos governantes encontram-se sob o escrutínio público como um verdadeiro nervo exposto e, assim, estamos testemunhando do que eles são feitos. Veja, não é fácil governar, legislar ou gerir instituições públicas, existe uma engrenagem gigantesca que precisa ser girada de forma harmônica e que os cidadãos sequer fazem ideia. É preciso raciocinar estrategicamente e em “cadeia”, enxergar o todo, comandar os blocos simultâneamente e responder às solicitações de transparência midiática quase imediatamente e 24 horas por dia. É um desafio e tanto e algo que os gestores devem em qualquer área, seja na pública ou privada.

Em meio ao caos sanitário, midiático, político e psicológico em que nos encontramos, estamos observando posturas exemplares de gestores de crise, em especial dos governadores que estão mais próximos dos acontecimentos diários e acabaram por influenciar as demais instâncias de decisão, ao gerar uma cadeia positiva de ações de prevenção e enfrentamento da pandemia, que esperamos possa ser dissipada em breve. Importa destacar ainda a ação incisiva e imediata do Ministério da Saúde, que transmite em primeiro lugar a segurança aos cidadãos, com informes constantes e diretos, orientações e rápida busca de soluções emergenciais dentro da estrutura de um sistema de saúde extremamente precarizado pela corrupção e má gestão como o nosso.

Por outro lado, posturas reprováveis como lideranças políticas promovendo reuniões, algumas falas contraditórias do presidente da república (para dizer o mínimo) e, a mais deplorável de todas, a proposta de adiamento das eleições. Já circulam no Congresso Nacional, Propostas de Emenda Constitucional (PECs) de autoria do PT (adiamento para 13 de dezembro de 2020) e outras de autoria do Podemos e PSL (estas duas propondo o adiamento para 2022),  endossadas por outras lideranças políticas e partidárias, sob a alegação de que estaremos nos recuperando da pandemia e não haveria “clima” para as eleições. Mas o que ninguém te conta é que essa sugestão, além de precoce e alarmista, esconde duas questões essenciais:

  1. A extensão do mandato de prefeitos por mais dois anos, contraria a Constitituição Federal, que prevê que as eleições ocorram no mês de outubro a cada quatro anos. Tal atitude demandaria uma alteração constitucional que possivelmente não teria o debate necessário e poderia abrir um precedente para outras extensões do tipo em situações atípicas (que podem ser enquadradas em qualquer situação a depender do que o legislador especifique na lei).
  2. A desconexão de alguns políticos do cenário que se desenha há anos, onde a tecnologia e as necessidades dos eleitores demandam mais conteúdo e responsividade dos representantes eleitos (sem falar do reconhecimento da demanda imediata que recomenda os debates e os esforços dos poderes em torno da questão de saúde e econômica antes de tudo).

Vê como não é uma simples questão de apoio ou de adiar uma data, como se fosse um compromisso qualquer?

A eleição, em nossa cultura política é um momento de festa, onde os candidatos mexem com os corações e mentes dos eleitores. As últimas eleições, em especial a de 2018, provaram que essa festa e comoção pode ser fomentada também de forma virtual. É claro que nada substitui o contato físico mas, no pior cenário em que esse contato ainda não fosse possível no período eleitoral (julho-setembro), não há impedimento para falar com o eleitor pelas redes sociais, transmissão de propaganda eleitoral, realização de debates em vídeo conferência. O que acontece é um temor por parte de alguns grupos políticos que ainda não conseguem se adaptar à nova realidade política, eleitoral e a da crise atual, alegando que quem tem mais dinheiro vai se sair melhor nas eleições. Bem isso sempre foi assim, infelizmente, mas as novas tecnologias permitem maior margem de comunicação gratuita e isso é um fato.

Haveria claro a necessidade de presença física no dia da eleição, mas você acredita mesmo que até lá não estaremos fora de casa? A previsão de contorno da situação atual gira em torno de quatro meses, ou seja, até meados de julho e, provavelmente não estaremos em isolamento social até lá. Ajustes terão que ser feitos, é claro, mas não acredito que a data da eleição tenha que ser um deles, pelo menos não agora no início da crise. Tomar tal decisão baseados apenas nas informações que temos hoje e cercados por uma opinião pública comprometida com a preocupação que nos assola é, no mínimo temerário.

O momento que estamos atravessando contém também informações sobre como é possível melhorar a administração pública, adotar soluções inovadoras e alternativas eficazes para a condução das decisões públicas, melhorar a gestão dos recursos. O Senado Federal realizou a primeira sessão virtual da história política brasileira, e com sucesso. Portanto, não há mais como alegar que não existem caminhos possíveis.

Vamos tomar cuidado, o vírus tem a ver com voto sim. Podemos aproveitar esse momento em que o ruído do dia a dia está mais baixo para observar quem são os líderes políticos que tem capacidade para representar as pessoas e gerir as instituições e os que estão preocupados apenas em se perpetuar no poder.

Fiquem à salvo e em casa!

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