O “saldo” eleitoral do Covid -19

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No final da semana passada, durante a apuração de votos da eleição americana, veio novamente à tona a declaração que a atriz e ativista Jane Fonda deu em outubro, na qual ela diz, e eu cito: “Covid-19 é um presente de Deus para a esquerda”.

Ela se referia à crise sanitária e econômica provocada pela pandemia e a oportunidade criada para que a imagem de Trump fosse manchada. À despeito dessa declaração revelar um pensamento por vezes limitado e oportunista da situação, o que ela mesma reconheceu ser terrível, podemos usar essa declaração para refletir sobre um preceito básico das mudanças sociais e políticas.

Em tempos de crise, a conduta de quem está no poder, aliada à sua capacidade de resolver a situação imediata com o mínimo de dano à vida e ao cotidiano das pessoas, são fatores de peso e, em certos casos, determinantes na avaliação que os cidadãos fazem das instituições políticas e de seus titulares. Se a crise ocorrer em ano eleitoral como este então, todos os olhos, ouvidos e câmeras estão voltados aos que pleiteiam os cargos, em especial aos que já estão no poder e intentam se manter nele.

A capacidade de resposta de Trump e a forma como ele e seu governo escolheram responder à crise nos Estados Unidos pôs a campanha de Biden em posição privilegiada para fazer oposição. A vitória dele, porém, não refletiu uma mudança radical na mentalidade dos eleitores em relação à 2016, afinal foi uma disputa acirrada, o que quer dizer que os republicanos e o próprio Trump ainda tem algum fôlego no debate de ideias norte-americano.

Aqui no Brasil, a pandemia nos atingiu em um ano eleitoral onde os cargos em disputa são os mais próximos da população, prefeitos são os “síndicos” da cidade e os vereadores os fiscais diretos. Dependendo do tamanho da cidade, os representantes são seus vizinhos, parentes, amigos ou pessoas a quem a população em geral tem fácil acesso e podem acompanhar de perto a condução diária da administração. Alguns não perceberam isso e esqueceram que, além de ser um ano eleitoral, foi (e ainda é) também um ano de crise, em que seu papel de gestor deveria estar em primeiro plano.

O cenário de pandemia forneceu um palco onde a população pôde ver, ouvir e avaliar em tempo real a capacidade de gestão e o interesse político dos prefeitos, vereadores e candidatos para, iniciado o período de campanha, decidir se vale a pena renovar a confiança dos que já estão no cargo ou confiar em candidatos que demonstraram interesse e contribuíram para a administração do quadro de crise.

Mais uma vez pudemos também observar quais são aqueles que não merecem o título de lideranças políticas, pois pouco se importaram com suas responsabilidades no cargo e seu compromisso com a população, seja por inércia, demora na resposta ou por aproveitar o desespero gerado pela situação e as exceções nos trâmites administrativos, para se apropriar indevidamente do dinheiro público.

Não diria que o Covid-19 foi um presente estratégico para qualquer corrente ideológica, tal como afirmou a atriz, isso é um pensamento cruel até em termos estratégicos. Mas certamente em meio ao caos em que ainda nos encontramos, é possível observar uma mudança positiva no comportamento eleitoral. As pessoas estão priorizando a decisão racional ao escolher seus candidatos e candidatas, avaliando se tem um histórico honesto e competente e, se em meio à crise priorizaram a população ou seus próprios interesses. Isso pode ser observado em potenciais de voto e rejeição de prefeitos ou figuras políticas já conhecidas em muitos municípios.

Toda crise contém em si um potencial de mudança, que pode ser positiva ou negativa, e em termos eleitorais pelo menos, essa que estamos atravessando parece trazer um saldo positivo para a nossa democracia. Vamos aguardar a eleição do próximo domingo e observar se os novos representantes entenderam o recado.

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