Opinião pública e sua relação com a democracia

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Presente nos escritos filosóficos desde o século XVIII, a importância do estudo da opinião pública se consolidou mais tarde a partir de questões comuns à Ciência Política e à Psicologia Social, referentes ao comportamento e às atitudes políticas dos cidadãos e sua importância para as questões de Estado. Em democracia, ela materializa o princípio de livre manifestação pública de ideias e participação política e, com a evolução das tecnologias de informação e comunicação, passou a ter na comunicação social um recurso essencial para sua divulgação e construção de redes de relacionamento a distância.

Ao longo do século XX a opinião dos cidadãos passou a ser tratada como um sintoma no quadro geral de “saúde” do sistema político e, como qualquer sintoma, demandou sua aferição frequente a fim de que as decisões políticas tivessem uma base mais sólida. Assim tornou-se um elemento primordial do exercício da cidadania, em vista de compensar o déficit de participação no sistema democrático que temos. É uma forma de diálogo entre os cidadãos e o Estado, servindo como elemento essencial da condução da estratégia de qualquer partido ou governo.

A importância da análise e aferição da opinião pública torna-se mais visível em época eleitoral, quando as pesquisas de opinião ocorrem com uma frequência exponencialmente maior e dominam o ambiente de escolha, em uma espécie de dupla função: mapear o ambiente político e influenciar a escolha dos cidadãos.

Antes associada a uma parcela reduzida da sociedade, conhecida como “formadores de opinião”, a ideia da opinião pública aparecia associada a uma atividade de emissão, alinhada às características dos meios de comunicação vigentes (impressos, rádio e TV). Atualmente apresenta um fluxo mais difuso e unidirecional, influenciado pela comunicação horizontal característica da Internet e das rede sociais. Assim, temos na atualidade não apenas a opinião de uma pessoa ou de um grupo influenciando uma massa de pessoas senão uma quantidade infinita de opiniões sendo emitidas por canais de mídia profissional, acadêmicos, empresas, organizações civis e cidadãos comuns, criando um barulho muito alto em torno das ações do Estado e dos governos.

Mas o que ninguém te conta é que, para que se fale em opinião pública, as opiniões manifestadas devem fazer parte de um conjunto massivo dentro da sociedade, devem ter a capacidade de fazer diferença em termos dos destinos das decisões públicas em um caminho democrático, do contrário são apenas opiniões “pessoais” (ainda que de grupos) que podem até atrapalhar, em um grau mais sério, o próprio exercício democrático.

O fenômeno político contemporâneo, manifesto em democracias cada vez mais competitivas e dominadas pelo elemento midiático, é sujeito a uma mudança em tempo social extremamente acelerado enquanto o fenômeno cultural é sujeito a uma mudança em tempo social demorado. Estamos em meio a um verdadeiro caos informativo, que não começou com a atual pandemia, mas encontra nela cenário perfeito para seu desenvolvimento no mundo todo. As notícias nos chegam como verdadeiros mísseis por segundo, através de fontes confiáveis ou não, e nossa capacidade de refletir e emitir opiniões qualificadas a respeito dos assuntos públicos acaba seriamente comprometida pelas emoções.

Se, enquanto indivíduos, nos encontramos nessa situação, como sociedade essa formação de uma opinião sofre maior influência ainda, quando os governantes reagem na velocidade do ciclo de notícias e sob influência de diversas opiniões fragmentadas, confundidas com a opinião pública. As diferenças de velocidade entre tempo social e o tempo político prejudicam intensamente o elemento informativo que constitui a formação da opinião pública. Temos um volume cada vez maior de informação, mas temos mesmo conhecimento sobre os fatos? Platão já dizia que a opinião encontra-se entre a ignorância e o conhecimento.

Esse espaço, ao ser mal preenchido, causa um impacto real na imagem que temos do poder e das instituições e, por outro lado, prejudica a tomada de decisões políticas, que por vezes agem em detrimento da aferição concreta e tendem a se basear em recortes momentâneos dos fatos que podem não representar a opinião pública corrente. Em tempos de crise, é óbvio que as interferências de interesses particulares crescem e o tempo entre informação e decisão é prejudicado, mas não se pode prescindir do respeito à opinião pública e nem se tornar um hábito em tempos de paz.

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