Populismo eleitoral no século XXI?

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A palavra populismo tem sido bastante usada nos últimos anos, mas você sabe o que significa? E por que ainda é usada em pleno século XXI?

Populismo é um termo surgido dois séculos atrás e usado para designar práticas políticas (não é uma ação só, é uma espécie de sistema de ação) que tem como prática discursiva o “agir pelo povo”, “a favor do povo” em contraponto a uma elite, que supostamente o oprime.

Sua característica básica é o contato direto entre as massas urbanas e um líder com perfil carismático sem, necessariamente, contar com a intermediação dos partidos, o que por si só já vai de encontro  ao modelo de democracia representativa que temos.

Não podemos deixar de pontuar que, ao centrar o modo de acesso e o exercício do poder em um líder carismático em detrimento do arranjo institucional democrático, a prática populista é o caminho que tem maior probabilidade de degenerar em uma prática fascista, com massas encantadas por discursos que alardeiam o “cuidado com o povo” e escondem objetivos egoístas de perpetuação no poder.

Nas campanhas eleitorais, o populismo pode ser facilmente reconhecido em slogans batidos, do tipo “cuidar do nosso povo” e discursos de amor à cidade e às pessoas, repetidos à exaustão de forma genérica. O líder populista procura estabelecer um vínculo emocional com o “povo”, polarizando as opiniões e buscando simpatia em um nível pessoal e não institucional. Não quero dizer que todo candidato ou candidata que fala em cuidar das pessoas seja, necessariamente, populista, mas a ausência de propostas concretas e específicas, que vão além do tal cuidado e o ataque às instituições democráticas já indica o uso de algumas técnicas populistas.

Bem, vamos deixar claro, populismo é um conceito e uma prática e, como tal, não pertence a nenhuma ideologia específica, ele é sim, apropriado por diversas correntes ideológicas como socialismo, nacionalismo ou liberalismo à direita ou à esquerda, como ferramenta de acesso ao poder e de dominação. No Brasil tivemos a experiência dele tanto à direita como à esquerda. Há quem o chame de ideologia, mas pessoalmente eu considero um projeto de poder, mais um modo de agir do que um conjunto de ideias.

Mas por que então, em um contexto bem diferente do começo do século XX, estamos vendo a permanência desse conjunto de práticas em nossa política? Lembram que Maquiavel disse que estamos fadados, enquanto sociedade, a repetir os erros políticos com os quais não aprendemos? Pois bem, tal como naquela época, estamos em um processo de mudança onde novas forças sociais estão trazendo novas demandas e, naturalmente, vão se chocando com as estruturas que já estão em vigor (não quer dizer que as novas sejam boas e as que estão em vigor sejam ruins), alavancadas pela presença da tecnologia, que garante acesso a uma maior parcela de pessoas à informação e ao debate político.

Não temos mais as aristocracias rurais dominando os espaços de poder, mas ainda temos como herança dessa época uma concepção de política como favor, como algo que nos é dado por alguém ungido (perceba por que o “mito” de Bolsonaro funciona, bem como o “pai dos pobres” de Lula funcionou) e o poder como um direito hereditário. A presença do populismo em uma sociedade tem a ver com a cultura política e o inconsciente coletivo, portanto ela não é exclusividade do Brasil. Não, nós não somos os atrasados, os subdesenvolvidos nem a soma de todos os males, diversos países de democracia consolidada também enfrentam a chamada “onda populista” do século XXI, caracterizada pela junção de políticas liberais e práticas assistencialistas.

O populismo político e eleitoral do século XXI, especificamente no Brasil é, ao mesmo tempo, o resultado de resquícios autoritários da nossa cultura política e, uma reação à mudança nos espaços de poder e opinião operados pelo acesso às novas tecnologias de informação e comunicação. É um choque entre uma visão subdesenvolvida da política como “direito de nascença” e a percepção da política como direito e dever de todos. É um processo, ainda vamos conviver com ele durante algum tempo e não tem inteligência artificial que possa evitar enquanto não nos entendermos como protagonistas de nossa vida política.

Desconfie daqueles que criticam as instituições e a classe política em geral, que alegam não precisar de partidos políticos, dos que se autodenominam “não políticos (as)” ou insistem no discurso do “nós x eles”. Esse não é um discurso democrático.

Nesse aspecto acredito que o populismo do século XXI tem um papel educativo, do tipo, “o que não devemos aceitar” em líderes políticos.

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